Arquivo da tag: Teologia

O Ser cristão

Creio que por ocasião da proximidade do dia 31 de outubro, aniversário da Reforma Protestante, alguns irmãos começaram a postar suas mensagens no Twitter acompanhadas da hashtag #OrgulhoDeSerCristao. Um outro grupo no entanto, passou a discordar destes primeiros, achando que nada que se refira a “orgulho” combina com o “ser cristão”. A despeito desta discussão, passei a meditar sobre o que é “ser cristão” de fato.  Em um passado não muito distante, eu enumeraria facilmente um sem número de traços que caracterizam um “cristão”, hoje contudo, tenho mais perguntas do que respostas…

  • Cristão é alguém que faz uso da Bíblia…

Acho que não, pois outros grupos religiosos, como os Espiritas Kardecistas, fazem uso da Bíblia em diversos níveis.

  • Cristão é alguém que admira e procura seguir o modelo de Cristo…
Mais uma vez, não acho que esta propriedade defina alguém como cristão, pois existem ateus menos preconceituosos que creem na existência do Cristo histórico e procuram seguir, de alguma forma, o Seu exemplo moral.
  • Cristão é alguém que crê na divindade de Cristo…
Aceitar a plena divindade de Jesus (Colossenses 2:9), assim como entender que Ele veio como homem mortal (2 João 1:7), são coisas importantes para fé cristã, todavia, alguns seguidores de cultos afro-brasileiros também acreditam na “divindade” de Cristo.
  • Cristão é alguém que não tem vícios…
Não creio que isto por si só distingua alguém como cristão, pois existem vários grupos ascéticos e movimentos sócio-culturais como o Straight Edge, que propõem uma vida livre de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Tal abstinência na maioria das vezes não tem motivação religiosa, e sim, ideológica. No outro extremo, vemos homens como Charles Spurgeon, que fumava, e C. S. Lewis, que costumava participar de animadas reuniões em um típico pub inglês, regadas a quantidades nem sempre moderadas de scotch. Estou convicto de que o exemplo do apóstolo Paulo (1 Coríntios 6:12) deve ser acatado e seguido, mas certamente, ter ou não vícios não faz de você um cristão.
  • Cristão é alguém que vive em santidade…
Sei que Deus nos chama a santidade (1 Pedro 1:15), entretanto, monges budistas e rishis indus podem facilmente ser classificados como “separados deste mundo”…
  • Cristão é alguém que ama…
Acho uma temeridade crer que todas as pessoas não cristãs do mundo são privadas deste sentimento, ponto.

Diante disto, compreendo que se faz necessário recorrer as origens da palavra “cristão”. Esta denominação foi dada pela primeira vez a alguns discípulos de Jesus que pregavam o Evangelho em uma região conhecida na antiguidade como Antioquia, na atual Turquia.  A grosso modo, a palavra “cristão” designa alguém que é um “pequeno Cristo” ou uma “imagem de Cristo”.

É maravilhoso constatar que este epíteto não teve origem entre os próprios seguidores de Cristo. Outras pessoas que não partilhavam da mesma fé, viram nas vidas daqueles crentes o transbordar do Espírito de Jesus!

E como este “transbordar” se manifestava? Pois apesar dos recentes apelos a uniformidade – de como devemos nos vestir, falar e agir – os próprios apóstolos nos forneceram um exemplo vivo da diversidade humana que existia na igreja primitiva.

Finalmente, acredito que o Senhor nos amou primeiro (1 João 4:19), outrossim, estou certo que o “ser cristão” vem de Deus para o homem (1 Tessalonicenses 1:4), e por este motivo, não é algo que possa ser quantificado, qualificado e muito menos, “reproduzido”.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2:8)

Anúncios
Etiquetado , , , , , ,

Um apóstolo segundo um apóstolo

O chamado “Movimento da Restauração Apostólica” transformou o que outrora fora um extraordinário ofício circunstancial em mais um degrau a ser escalado na carreira eclesiástica. A meu ver, o apostolado moderno é só mais uma patente, um insígnia dourada, forjada com o propósito de enaltecer os homens que a ostentam. Estes charlatões condecorados, que transpiram altivez e vaidade por todos os poros, não poderiam estar mais distantes dos apóstolos genuínos.

Creio que não há quem melhor possa falar a respeito da realidade do ministério apostólico do que um apóstolo… E um de verdade! Acho que Paulo é a pessoa certa para esta tarefa, pois foi quem mais precisamente descreveu a vida e a obra de um enviado (é o que a palavra grega ἀπόστολος, apostolos, significa) . Portanto, vamos contrapor a vida do Apóstolo dos Gentios com a destes que existem por aí…

  • Alguns dos apóstolos modernos rasgam os céus a bordo de seus jatos de luxo, ao passo que os apóstolos autênticos não tinham meios para manter uma montaria, e por conta disto, costumavam percorrer longas distancias a pé.  Paulo também chegou a se deslocar em barcos, o que rendeu-lhe um saldo de três naufrágios  (2 Coríntios 11:25);
  • Muitos destes que se dizem apóstolos, nas vezes em que são pegos de calças curtas pela justiça dos homens, ou quando são criticados por seus vários deslizes doutrinários, costumam apresentar-se como vítimas injustiçadas (1 Pedro 2:20).  Paulo foi apedrejado, surrado com varas (2 Coríntios 11:25) e aprisionado (2 Timóteo 2:9), e ainda assim, ousava dizer que “…a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2 Coríntios 4:17) [grifo meu];
  • Os apóstolos de hoje exigem de seu séquito toda espécie de donativos, ofertas, sacrifícios e sementes. Paulo, temendo sobrecarregar a igreja, preferiu trabalhar noite e dia, afim de prover o seu próprio sustento (1 Tessalonicenses 2:9);
  • Muitos destes falsos apóstolos pregam que quanto mais dinheiro, propriedades, títulos e posições sociais um cristão acumular, mais abençoado este é diante de “deus”. Paulo escreveu que perdeu todas estas coisas, pelo conhecimento de Cristo Jesus, e a partir deste momento, passou a considera-las como “esterco” (Filipenses 3:4-8);
  • Os apóstolos desta era, vivem vidas confortáveis, sem muitos percalços. Paulo afirmava estar experimentado em tudo, desde a fartura até a pobreza,  desde a abundância até a fome (Filipenses 4:12);
  • Os apóstolos modernos gabam-se do tamanho de suas congregações e de possuírem em seus currículos várias (supostas) curas e milagres, em oposição a Paulo, que dizia gloriar-se unicamente de suas fraquezas (2 Coríntios 12:5);
  • Os apóstolos de hoje, desfilam em seus carros de luxo, em uma flagrante afronta a pobreza da maioria de seus seguidores. Paulo se fez de fraco diante dos fracos, para ganha-los para Cristo (1 Coríntios 9:22);
  • Os apóstolos atuais consideram-se santos ungidos e inatingíveis. Paulo considerava a si mesmo “o principal dos pecadores” (1 Timóteo 1:15);
  • Paulo trazia em seu corpo, as marcas do Senhor Jesus (Gálatas 6:17), os apóstolos deste século estão com suas cútis impecáveis;
Paulo não fui uma exceção a regra, o ministério dos demais apóstolos também foi povoado por lutas e dificuldades, e nem isto garantiu-lhes uma descida tranquila aos túmulos de seus pais! O único apóstolo que teve sua morte registrada no Novo Testamento foi Tiago, filho de Zebedeu, executado por Herodes por volta de 44 d.C. (Atos 12:2). Não obstante, registros históricos e/ou advindos da tradição nos dão conta do tipo de morte que os demais tiveram:
  • Pedro foi crucificado de cabeça para baixo (a seu próprio pedido, por não considerar-se digno de morrer como seu Mestre) no Circo de Nero;
  • André foi morto em uma cruz em forma de “X”;
  • Tomé foi morto pelas lanças de quatro soldados em Mylapore, Índia;
  • Existem divergências quanto a morte de Felipe. O mais provável é que ele tenha sido crucificado, mas existem relatos que confirmam sua morte em uma prisão da Ásia Menor, mediante tortura, ordenada pelo pró-cônsul;
  • Também não é muito precisa a “causa mortis” de Mateus, enquanto algumas histórias dizem que ele não foi martirizado, outras confirmam sua morte por esfaqueamento na Etiópia;
  • Bartolomeu teria sido esfolado vivo e depois decapitado pelo governador de Albanópolis, atual Derbent (cidade localizada na República do Dargestão, Rússia);
  • Como dito antes, Tiago, filho de Zebedeu, foi executado em 44 d.C;
  •  Tiago, filho de Alfeu, teria sido apedrejado;
  • Simão, o Zelote, foi morto após ter se negado a sacrificar ao deus Sol dos zoroastristas;
  • Judas Tadeu foi morto a machadadas, no mesmo episódio que vitimou Simão, o Zelote;
  • João teria morrido de morte natural em Éfeso, no ano 103 d.C., quando tinha 94 anos;
  • Matias foi morto na fogueira;
  • Paulo, por possuir cidadania romana, não foi crucificado e sim decapitado, na Via Ostiense, em Roma;

E ai? Alguém ai ainda quer ser apóstolo?

Etiquetado , , , , , ,

O estado de pecado

A alguns dias, publiquei uma enquete que tinha o intuito de colher de meus leitores, opiniões a respeito da “doutrina” do “pecado de estado”. Apesar de ninguém ter se disposto a expressar suas idéias nos comentários, após algumas conversas e muita reflexão, cheguei as seguintes constatações a respeito do tema proposto:

  1. Fato: Voluntariamente ou não, somos sócios do estado, pois seu sustento advém dos impostos que pagamos, ao passo que tiramos proveito dos benefícios que este nos oferece;
  2. Fato: Sofremos por conta do mal funcionamento da máquina estatal. A malversação de recursos públicos, que deveriam ser destinados a saúde, educação e segurança pública nos afeta diretamente;
  3. Fato: Acredito na onipotência de Deus e creio piamente que Ele pode, de acordo com a Sua soberana vontade, interferir nos rumos da história. Contudo, os males citados no item anterior, são consequências naturais de uma administração corrupta, não é preciso uma ação sobrenatural da parte Deus para que eles se abatam sobre nós;
  4. Fato: Só alguém dotado de consciência é capaz de pecar;
  5. Fato: Assim como nós, o  estado tem uma “consciência” que o rege (constituição);
  6. Fato: No entanto, o estado, assim como a sua suposta consciência, não se sustentam sozinhos. A consciência estatal é fruto da mente humana;
  7. Fato: Podemos ter problemas por estarmos coligados a um estado adoecido, isto porém, não pode ser interpretado como uma punição divina;

Concluo portanto, que o estado pode ser tão pecador quanto uma samambaia! Não existe este tal “pecado de estado” e sim  um estado de pecado em que muitos se encontram.

Etiquetado , , , , , , ,

Tua fé te salvou

“E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé.” (Mateus 8:10)

O capítulo oito do Evangelho segundo Mateus é pontuado por encontros que aparentam ser frutos do acaso (bem sabemos que não). Enquanto Jesus andava, pessoas diferentes com problemas diversos, interrompem seus passos em busca de socorro.

Neste texto, presenciamos uma improvável (para aquele contexto) confluência de caminhos: Um centurião romano, que desde os primeiro anos de sua vida fora educado para adorar ídolos inanimados, suplica a Jesus, o Deus encarnado, pela cura de um de seus servos.

Mais impressionante que o encontro em si, é a declaração daquele oficial de roma. Com poucas palavras, ele foi capaz de uma demonstração de fé tão eloquente, que maravilhou o próprio Cristo.

Depois deste episódio, não foi registrada um linha sequer sobre aquele homem, o que me instiga a fazer algumas perguntas:

  1. Ele renunciou ao seu cargo e as suas obrigações para com Roma?
  2. Ele passou a reunir-se com a Igreja?
  3. Ele abandonou o culto aos deuses de seus antepassados?

Não podemos concluir nada com absoluta certeza, mas não é difícil imaginar que a resposta para as três perguntas seja uma só: Não

  1. O fato de um centurião romano desertar com o propósito de seguir a Cristo seria digno de menção, no entanto, não existem relatos que confirmem este fato.
  2. Provavelmente não, levando em consideração a resposta anterior;
  3. Seria inconcebível que um funcionário do estado romano não professasse a religião estatal;

Por conta destas constatações, somos tentados a fazer mais uma pergunta: Será que tamanha a fé não foi capaz de conduzi-lo a salvação?

Daí, me vem a mente uma frase que Jesus insistia em repetir: “a tua fé te salvou…”

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2:8)

Carlos

EDIT:

O autor da imagem utilizada no post é o meu chará, André Marques, todos os créditos sejam dados a ele por esta excelente obra! Visitem o blog dele.

Etiquetado , , ,

Existe pecado de estado?

Bem pessoal, a pergunta parece ser simples, mas as implicações são muitas. Quero saber a opinião de vocês, e se possível, utilizem o formulário de comentários para postar suas impressões a respeito do assunto.

EDIT

Como diria o “Velho Guerreiro”: Eu vim pra confundir, não para explicar!

Jesus citou as cidades impenitentes de Corazim e Betsaida (Mateus 11:21), falando a respeito do juízo que se abaterá sobre elas. Em outro episódio, vemos o Mestre chorando sobre Jerusalém (Mateus 23:37), por conta de sua rebeldia. Seriam estas as evidencias de que um “estado” pode pecar e  por consequência, padecer por isto?

Etiquetado , , ,