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O Ungido falando mal do Ensebado

Quem é o sujo aqui?

Era uma vez dois homens, ambos naturais da mesma cidadezinha do interior, filhos legítimos do chamado “Brasil profundo”. Contudo, apesar do berço comum, os dois trilharam caminhos bem diferentes.

Enquanto um abraçou de bom grado a oportunidade de estudar na capital, o outro preferiu permanecer em seu torrão natal, afim de auxiliar o pai na lida com a terra.

que emigrou para a cidade grande, tornou-se membro de uma pequena igreja evangélica, motivado por uma pretensa namorada,  pois esta impôs como condição para o inicio do relacionamento sua filiação a congregação.

que ficou, acabou sendo confrontado com a dureza e as incertezas próprias do trabalho no campo. Por fim, após a morte de seu pai, passou a vagar pelas ruas do lugarejo, invariavelmente bêbado e quase sempre acompanhado pelos piores tipos daquela região.

que foi para a capital, a principio, angariou a simpatia de muitos naquela igrejinha, por conta dos seus modos simples e cordiais. No entanto, com o passar do tempo, aquela humildade bucólica foi dando lugar à vaidade, pois cedo ele percebeu a influencia que exercia sobre toda a membresia.

esta altura, o homem que permaneceu no interior já não tinha mais nada do pouco que seu pai havia lhe deixado. Não demorou muito para que ele começasse a praticar pequenos delitos.

homem da capital começou a ganhar cada vez mais espaço naquela comunidade. Era convidado a ocupar o púlpito um domingo sim, outro sim. Daí, ele passou a acreditar que toda aquela notoriedade o credenciava a receber uma investidura “oficial”. Esta ideia inchou em seu peito ao ponto dele sentir-se terrivelmente compungido a “intimar” o pastor presidente a ordena-lo ministro evangélico.

homem do interior por sua vez, andava ostentando um semblante estranhamente tranquilo. Ele agora parecia divertir-se com os crimes que cometia, o que não o privou certa vez, de provar o gosto amargo do medo, pois, em uma noite qualquer, enquanto tentava surrupiar uma bomba d’água, por pouco não foi apanhado.

homem da capital, passou a enxergar as outrora acolhedoras paredes da igrejinha como muros opressores, que só serviam para coibir seu crescimento. Certa manhã, após uma rápida audiência com o pastor presidente, resolveu se desligar daquela congregação. Apesar de visivelmente perturbado, percorreu o curto espaço entre o gabinete pastoral e o portão que dava para a rua em um passo lento, parando a cada fileira de bancos para uma breve conversa ao pé do ouvido com um ou outro membro. Não houve cerimonia, não foram feitas orações nem se ouviram palmas, no entanto, naquele mesmo momento, ele “ungiu-se” pastor.

Depois do incidente da sua quase captura, o homem do interior começou a buscar maneiras de tornar suas futuras investidas menos arriscadas. Foi então que ele recordou uma antiga estoria sobre as peripécias de alguns gatunos astuciosos, que cobriam o corpo de gordura animal para não serem agarrados com facilidade. Dali em diante, ele passaria a ser conhecido – e temido – como “o ensebado”!

Após abandonar sua antiga igreja, o “ungido” começou a por em prática seus planos. Ele tinha consciência das batalhas que tinha pela frente, mas considerava-se apto a enfrenta-las. O carisma seria o seu canhão e as promessas de cura imediata e prosperidade ilimitada seriam as suas balas! Abriu um templo, depois dois, depois três… E em pouco tempo já tinha um programa de rádio e um horário na TV!

Enquanto isto, na cidadezinha interiorana, o “ensebado” também prosperava, pois, além de facilitar sua passagem por locais estreitos, a banha que utilizava para besuntar o corpo fornecia uma boa camuflagem quando unida ao pó de terra.

Certo dia, o “ungido” – ninguém sabe ao certo se movido pelo desejo expansionista de atingir novos “mercados” ou por puro saudosismo – teve a ideia de levar seu “show de milagres” até sua cidade natal. Quando seus acessoares entraram em contato com o prefeito, não precisaram gastar muita saliva para convence-lo a apoiar a iniciativa, afinal de contas, um evento desta natureza sempre rende bons “frutos” para todos os envolvidos.

Logo que soube do “show”, o “ensebado” ficou exultante! Não que ele fosse religioso ou admirador do “ungido”, longe disto. Seus interesses eram bem mais materiais que espirituais.

comitiva do “ungido” chegou a cidadezinha no dia anterior a data marcada para o evento. O prefeito adiantando-se (poucas vezes ele foi capaz disto!), tratou de esvaziar um antigo galpão para que a equipe técnica pudesse guardar lá, toda a aparelhagem necessária a realização do “espetáculo”.

Para o “ensebado” foi o casamento perfeito entre a fome e a vontade de comer! Ele conhecia muito bem aquele depósito, pois em outras épocas, era utilizado como armazém de implementos agrícolas, fertilizantes e maquinário pesado. Esperou ansioso pelo cair da noite, para então, se esgueirar pelo vão da porta para dentro do prédio.

No dia seguinte, quando os integrantes da equipe do “ungido” começaram a notar a falta de alguns equipamentos, ficaram petrificados! Ao receber a notícia, o “ungido” passou a esbravejar, praguejar e amaldiçoar a cidade por não ter oferecido a segurança necessário para salvaguardar seus bens.

Já era tarde quando o “ensebado” acordou. Compreensível, afinal de contas, ele havia varado a noite “trabalhando”. Ainda deitado, ele percebeu algo que nunca estivera ali antes… Não se tratava do produto do roubo da madrugada anterior, e sim, de um forte sentimento de culpa!

Após se recompor, o “ungido” resolveu prosseguir com o programa, mesmo sem alguns dos instrumentos e equipamentos de luz, som e pirotecnia.

Ainda era cedo, quando as primeiras pessoas começaram a chegar na praça principal da cidade, local onde havia sido montado o palco para a “apresentação” do “ungido”. Todos estavam ávidos pelas palavras do grande pregador! Alguns hinos foram entoados a capela, pois vários instrumentistas ficaram de mãos vazias por conta da ação do “ensebado”. Então, ouviram-se vários gritos de “Aleluia” e “Gloria a Deus”, as luzes se apagaram e dois grandes holofotes dirigiram seus poderosos fachos para um ponto específico do palco, e como que em um passe de mágica, o “ungido” surgiu! Muitas palmas e gritos ecoaram pela praça!

ungido” mal cumprimentou a plateia e já começou a dar o seu recado. Ele estava visivelmente trêmulo e com o rosto vermelho, coisa inédita até para os seus mais antigos asseclas. De repente, sem que ninguém esperasse, da sua boca começou a saltar uma enxurrada de juízos e condenações contra aqueles que ousaram “tocar no ungido”! Por quase meia hora, mal se ouviu o nome de Jesus, ou de qualquer outra figura importante das Escrituras. Durante seu discurso, o “ungido” só ressaltou a importância do seu chamado e de como ele gozava de imunidade por ter sido convidado ao oficio sacerdotal pelo próprio “deus”.

Repentinamente, gritos são ouvidos no meio da plateia. Apesar disto não ser incomum em cultos desta natureza, os berros estavam alcançado um volume acima do “normal”. Um pequeno tumulto se iniciou e as pessoas começaram a buscar pelo autor de todo aquele clamor.

Então, um homem emerge da multidão com o rosto lavado por lágrimas… Era o “ensebado”! A priori, ninguém compreendia o que ele falava, todavia, quando todos fizeram silencio, foi possível ouvir com clareza suas palavras… Ele confessava, dentre outras coisas, a culpa pelo roubo dos equipamentos!

Quando o “ungido” entendeu que diante dele estava o ladrão que havia lhe causado tantas dores de cabeça, ficou fora de si! Passou a dirigir-lhe todo tipo de ofensa: maldito, filho do inferno, vagabundo, etc… No entanto, o “ensebado” parecia não escuta-lo.

Foi aí que o “ungido” percebeu que não era o principal destinatário dos incontáveis pedidos de perdão do “ensebado”… Ele parecia estar realmente arrependido, o que levava-o a confessar incessantemente vários de seus muitos pecados!

ira do “ungido” foi aos poucos sendo suplantada por um sentimento de espanto, pois percebeu o quanto ele e o “ensebado” eram parecidos. Não por serem conterrâneos, ou por terem quase a mesma idade, mas por ambos se revestirem de algo afim de obter vantagens – o “ensebado” para entrar nas casas das pessoas e o “ungido” para ganhar livre acesso as suas mentes e corações – e por usarem esta cobertura como um disfarce, que ocultava dos demais suas verdadeiras personalidades.

Por fim, o espanto do “ungido” cedeu lugar ao constrangimento, pois percebeu como aquele homem vil foi capaz de abandonar aquilo que lhe trazia inúmeras vantagens afim de pedir perdão a Deus e a todos os que haviam sido prejudicados por seus atos. Coisa que ele  admitiu para si mesmo, não estar apto a fazer.

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A ideia para este post surgiu após uma breve troca de twits com o @steniomarcius 

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Um apóstolo segundo um apóstolo

O chamado “Movimento da Restauração Apostólica” transformou o que outrora fora um extraordinário ofício circunstancial em mais um degrau a ser escalado na carreira eclesiástica. A meu ver, o apostolado moderno é só mais uma patente, um insígnia dourada, forjada com o propósito de enaltecer os homens que a ostentam. Estes charlatões condecorados, que transpiram altivez e vaidade por todos os poros, não poderiam estar mais distantes dos apóstolos genuínos.

Creio que não há quem melhor possa falar a respeito da realidade do ministério apostólico do que um apóstolo… E um de verdade! Acho que Paulo é a pessoa certa para esta tarefa, pois foi quem mais precisamente descreveu a vida e a obra de um enviado (é o que a palavra grega ἀπόστολος, apostolos, significa) . Portanto, vamos contrapor a vida do Apóstolo dos Gentios com a destes que existem por aí…

  • Alguns dos apóstolos modernos rasgam os céus a bordo de seus jatos de luxo, ao passo que os apóstolos autênticos não tinham meios para manter uma montaria, e por conta disto, costumavam percorrer longas distancias a pé.  Paulo também chegou a se deslocar em barcos, o que rendeu-lhe um saldo de três naufrágios  (2 Coríntios 11:25);
  • Muitos destes que se dizem apóstolos, nas vezes em que são pegos de calças curtas pela justiça dos homens, ou quando são criticados por seus vários deslizes doutrinários, costumam apresentar-se como vítimas injustiçadas (1 Pedro 2:20).  Paulo foi apedrejado, surrado com varas (2 Coríntios 11:25) e aprisionado (2 Timóteo 2:9), e ainda assim, ousava dizer que “…a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2 Coríntios 4:17) [grifo meu];
  • Os apóstolos de hoje exigem de seu séquito toda espécie de donativos, ofertas, sacrifícios e sementes. Paulo, temendo sobrecarregar a igreja, preferiu trabalhar noite e dia, afim de prover o seu próprio sustento (1 Tessalonicenses 2:9);
  • Muitos destes falsos apóstolos pregam que quanto mais dinheiro, propriedades, títulos e posições sociais um cristão acumular, mais abençoado este é diante de “deus”. Paulo escreveu que perdeu todas estas coisas, pelo conhecimento de Cristo Jesus, e a partir deste momento, passou a considera-las como “esterco” (Filipenses 3:4-8);
  • Os apóstolos desta era, vivem vidas confortáveis, sem muitos percalços. Paulo afirmava estar experimentado em tudo, desde a fartura até a pobreza,  desde a abundância até a fome (Filipenses 4:12);
  • Os apóstolos modernos gabam-se do tamanho de suas congregações e de possuírem em seus currículos várias (supostas) curas e milagres, em oposição a Paulo, que dizia gloriar-se unicamente de suas fraquezas (2 Coríntios 12:5);
  • Os apóstolos de hoje, desfilam em seus carros de luxo, em uma flagrante afronta a pobreza da maioria de seus seguidores. Paulo se fez de fraco diante dos fracos, para ganha-los para Cristo (1 Coríntios 9:22);
  • Os apóstolos atuais consideram-se santos ungidos e inatingíveis. Paulo considerava a si mesmo “o principal dos pecadores” (1 Timóteo 1:15);
  • Paulo trazia em seu corpo, as marcas do Senhor Jesus (Gálatas 6:17), os apóstolos deste século estão com suas cútis impecáveis;
Paulo não fui uma exceção a regra, o ministério dos demais apóstolos também foi povoado por lutas e dificuldades, e nem isto garantiu-lhes uma descida tranquila aos túmulos de seus pais! O único apóstolo que teve sua morte registrada no Novo Testamento foi Tiago, filho de Zebedeu, executado por Herodes por volta de 44 d.C. (Atos 12:2). Não obstante, registros históricos e/ou advindos da tradição nos dão conta do tipo de morte que os demais tiveram:
  • Pedro foi crucificado de cabeça para baixo (a seu próprio pedido, por não considerar-se digno de morrer como seu Mestre) no Circo de Nero;
  • André foi morto em uma cruz em forma de “X”;
  • Tomé foi morto pelas lanças de quatro soldados em Mylapore, Índia;
  • Existem divergências quanto a morte de Felipe. O mais provável é que ele tenha sido crucificado, mas existem relatos que confirmam sua morte em uma prisão da Ásia Menor, mediante tortura, ordenada pelo pró-cônsul;
  • Também não é muito precisa a “causa mortis” de Mateus, enquanto algumas histórias dizem que ele não foi martirizado, outras confirmam sua morte por esfaqueamento na Etiópia;
  • Bartolomeu teria sido esfolado vivo e depois decapitado pelo governador de Albanópolis, atual Derbent (cidade localizada na República do Dargestão, Rússia);
  • Como dito antes, Tiago, filho de Zebedeu, foi executado em 44 d.C;
  •  Tiago, filho de Alfeu, teria sido apedrejado;
  • Simão, o Zelote, foi morto após ter se negado a sacrificar ao deus Sol dos zoroastristas;
  • Judas Tadeu foi morto a machadadas, no mesmo episódio que vitimou Simão, o Zelote;
  • João teria morrido de morte natural em Éfeso, no ano 103 d.C., quando tinha 94 anos;
  • Matias foi morto na fogueira;
  • Paulo, por possuir cidadania romana, não foi crucificado e sim decapitado, na Via Ostiense, em Roma;

E ai? Alguém ai ainda quer ser apóstolo?

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