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Quem dizem os homens ser o Filho do homem

Fico imaginando que respostas Jesus ouviria hoje, caso repetisse a pergunta feita aos discípulos em sua chegada a Cesareia de Filipe (Mateus 16:13):

“…Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”

Posso arriscar alguns palpites:

  • Tu é aquele que veio restaurar nossa saúde e nos prover dinheiro e bens!
  • Tu é aquele que veio sobrecarregar o julgo que está sobre nossas costas, para que por meio dos nossos esforços, alcancemos a iluminação.
  • Tu é aquele que veio promover um golpe de estado, afim de depor este governo perverso e corrupto que tanto nos oprime.
  • Tu é aquele que veio revogar estas leis hipócritas que proíbem o consumo da maconha.

Diante de tais afirmações, sou obrigado a concordar com o que disse o conhecido ateu e detrator do cristianismo, Friedrich Nietzsche:

“E o homem, em seu orgulho, criou deus, a sua imagem e semelhança”

Todos querem um “cristo” para chamar de seu! Pode até parecer uma antinomia, mas arrisco dizer que até aqueles que rejeitam a fé cristã, não se sentem a vontade para negar a beleza, a força e a eficácia dos ensinamentos de Jesus. Como resposta a estes conflitos cognitivos, tais pessoas optam por moldar um “Jesus” que se adeque a suas vontades e verdades.

Dentre os diversos “cristos” que peregrinam pelo mundo afora, talvez o mais conhecido e popular seja o “Jesus Mestre da Moral”. Antes de falar dele, precisamos estabelecer o que é de fato, a moral.

A compreensão de moral não é universal, pois se baseia em um conjunto de regras fixadas por um grupo social específico; muito menos atemporal, pois tais preceitos estão subordinados ao tempo. Tentarei exemplificar:

  • No Brasil, a bigamia além de não ser bem “aceita” por nossa sociedade, é considerada crime, passível a pena de reclusão de 2 a 6 anos, já na República da Chechênia, é vista com naturalidade.
  • Também em nosso país, até os idos de 1888, manter uma pessoas em condições aviltantes, trabalhando em sua propriedade não era visto como algo absurdo.

O “Jesus Mestre da Moral” é palatável, agradável aos ouvidos e subsiste envolto em um manto resplandecente de “piedade” (2 Timóteo 3:5). Ele não é tão exclusivista e auto-referente quanto aquele homem “desagradável” que foi pregado na cruz (João 14:6). Não é incomum vê-lo ao lado de outros notáveis, como um igual. Seu único defeito é o de cobrar insistentemente – e não raras as vezes valendo-se da força – o que lhe é devido.

Já o Jesus da Cruz está ligado as coisas eternas, e por isso Ele mantém o “incomodo” hábito de superar a moral, de ir além das débeis convenções estabelecidas pelos senhores da lei.

“…Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.” (João 8:7,10,11)

Fala-se muito de Jesus, entretanto, toda esta palração tem gerado poucas oportunidades de refletir sobre o que Jesus disse a respeito de si mesmo.

“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.” (João 11:25)

“Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.” (João 12:46)

“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.” (João 10:11)

“Eu e o Pai somos um.” (João 10:30)

C.S. Lewis dizia que tais afirmações, tão ousadas e claras, tiram de nós qualquer espaço para manobrar ou produzir concepções a respeito de Jesus.

“Um homem que (…) dissesse aquilo que Cristo dizia (…) ou seria um lunático (…) ou então teria que ser o próprio demônio das profundezas do Inferno. (…) Você pode recluí-lo num hospício achá-lo maluco, cuspir nele e matá-lo por considerá-lo um demônio, ou cair a seus pés e chamar-lhe Senhor e Deus.” (C.S. Lewis)

A historia é testemunha do quão simples é gerar (espontaneamente ou não) um “messias” dentro da nossa subjetividade e andar sobre suas pegadas. No entanto, aquele que e O Caminho, A Verdade e A Vida, adverte.

“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos.“ (Mateus 24:24)

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Ridi, Pagliaccio!

Nós, seres humanos, prosseguimos em nossa incansável (infindável, diria C.S Lewis) busca pela felicidade. Somos animais essencialmente sociais, por este motivo, uma grande parcela de nossos momentos de contentamento (ou de desgosto) estão relacionados aos grupos dos quais fazemos parte (família, amigos, igreja, colegas de trabalho, etc…). Ciente deste fato, Tom Jobim compôs “Wave”, canção que eternizou em seus versos a afirmação categórica: “é impossível ser feliz sozinho”.

Acredito que qualquer homo sapiens com mais de três anos de idade já foi confrontado com alguns dos rigores e delicias da vida em bando. Viver em comunidade é, simultaneamente, prazeroso e estressante, pois, ao passo em que nos aconchegamos manhosamente no seio do rebanho, nos sentimos visceralmente impelidos a superar as expectativas de nossos semelhantes, demonstrar nosso valor e agradar a todos que nos rodeiam. Talvez seja este o motivo de, paradoxalmente,  levarmos o ato de “fazer rir” tão a sério.

Uma coisa é certa, apesar dos nossos talentos e esforços, nem todos rirão de nossas piadas, mais cedo ou mais tarde a rejeição mostrará sua face carrancuda. É neste momento que descobrimos o quão mágico pode ser um estojo de “maquiagem”! Aperfeiçoamos ao longo do tempo a capacidade de esconder os traços “indesejáveis” de nossa personalidade debaixo de grossas camadas de “pó de arroz”. Esta é a gênese  daquele que Brennan Manning chamou de “o impostor que vive em mim”.

Os palhaços são a prova viva de que – apesar da biologia contradizer esta tese – o mimetismo é uma capacidade inerente a espécie humana. Eles são profissionais da graça, seu ofício é fazer rir, portanto, por mais dolorosas que sejam as feridas em seus corações, precisam sublimar tais aflições e entrar no picadeiro com um largo sorriso no rosto.

Este é o drama que a ópera “Il Pagliacci” (o palhaço, em italiano) nos apresenta: Um velho palhaço traído por seu grande amor, que mesmo em meio a dor, é obrigado a se apresentar.

Tu és um homem?
palhaço tu és!
Coloque seu traje,
pó no seu rosto.
As pessoas pagam e querem rir.

ridi, Pagliaccio, e as pessoas irão aplaudir!

Assim como os bufões circenses, nós transformamos nossas vidas numa labuta diária para impressionar os que nos cercam, lutando contra nossos traços de caráter, que apesar de nos distinguirem, não são tão vistosos ou atraentes aos olhos  alheios.

Será que neste mundo onde a performance é  crucial, existe espaço para a autenticidade? Nós realmente precisamos ser aceitos por todos para levarmos uma vida plena e feliz? Brennan Manning, nos dá uma sugestão:

“O que acontece quando pecamos e falhamos, quando nossos sonhos se despedaçam, quando os investimentos se frustram, quando somos tratados com desconfiança? O que acontece quando precisamos confrontar nossa condição humana? Entretanto Deus ama quem de fato somos – quer gostemos disso ou não. Deus não apenas perdoa e esquece nossos atos vergonhosos, mas também transforma a escuridão em luz. Todas as coisas, em conjunto, cooperam para o bem daqueles que amam a Deus – ‘até mesmo’, acrescentou Santo Agostinho, ‘nossos pecados’.” (trecho do livro “O Impostor que vive em mim”).

A imagem que devemos nutrir a respeito de nós mesmo, segundo o autor de “O Evangelho Maltrapilho”, é de pessoas “apaixonadamente amadas por Deus”, e isto deve nos bastar! Ao adquirir tal consciência, não deveríamos mais sentir a necessidade de falsear nosso modo de ser. Um certo sábio irlandês uma vez escreveu que “Quanto mais deixamos que Deus assuma o controle sobre nós, mais autênticos nos tornamos”.

Portanto, caros irmãos, se as lágrimas quiserem brotar em seus olhos, que elas rolem a vontade, pois por vezes, elas funcionam como excelentes removedores de maquiagem.

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