La Pietà


Pietà é o termo italiano para piedade que também é utilizado para designar um tema muito popular na arte cristã. Creio que até o mais truculento dos iconoclastas ficaria comovido diante da solene dor de uma mãe, acolhendo em seus braços o corpo inerte do filho morto.

Em tempo, é bem certo que há algo de contraditório na obra prima de Michelangelo Buonarroti, pois esta flagra a humanidade (representada por Maria) na posição de concessora de misericórdia ao Cristo morto. Na verdade, aconteceu exatamente o oposto. Foi Jesus quem olhou nossos cadáveres com olhos piedosos! Éramos múmias ressecadas pelo natrão do pecado, todavia, Ele nos banhou com o Seu sangue precioso!

“Piedoso é o SENHOR e justo; o nosso Deus tem misericórdia.” (Salmos 116:5)

Muito se discute a respeito da polaridade piedade x justiça. Sempre que falamos da misericórdia divina e consequentemente, quando entram em pauta a Sua graça e o Seu amor, alguém aparece com a frase:

– Deus é amor mas também é justiça!

Francamente, não consigo enxergar estas duas coisas em hemisférios distintos!

Pergunto: Fomos salvos pela justiça ou pelo amor de Deus?

  • Se é verdade que fomos salvos pelo amor, podemos considerar injusto o amor de Deus?
  • Se considerarmos que fomos salvos pela justiça, estaria Deus nos resgatando a contra-gosto?
  • Ou ainda, se compreendermos que somos réus pela justiça e justos pelo amor, qual seria o critério de Deus para escolher entre um ou outro?

Não é o amor que se contrapõe a justiça, e sim o ódio! O ódio cega! Quando odiamos, quase sempre agimos com injustiça! Diante disto, da mesma forma como sabemos que justiça e ódio são como água e óleo, compreendemos que não há como dissociar amor e justiça, pois ambos são partes da natureza de Deus!

“[O Amor] Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;” (1 Coríntios 13:6)

nEle

Carlos

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5 pensamentos sobre “La Pietà

  1. oandarilho01 disse:

    Hmm…
    Vejo um equívoco na sua crítica à obra: piedade e misericórdia não são a mesma coisa.

    Deus pode ter por nós compaixão, ou seja, piedade. Pode ter literalmente pena de nossa condição de frágeis (de corpo e alma) e suscetíveis às tentações e ao pecado.

    A pietà, assim, ilustra tão-somente a pena sentida por Maria pela morte do Cristo homem. Eu digo, aliás, que a obra é brilhante *por causa disso*! Justamente por enfatizar a natureza humana de Jesus (que foi renegada por alguns hereges dos primórdios do cristianismo).

    Por nossa vez, a piedade que temos para com Deus é aquela que denota a devoção. O dom da piedade, um dos 7 dons do Espírito Santo (catecismo católico), ensina justamente esta honra devida a Deus. Absolutamente não significa “ter pena de Deus”.
    Mas é até um engano recorrente 🙂

    Outrossim, somente Deus pode ter misericórdia, visto que a palavra significa, justamente, a compreensão (pelo coração) da nossa miséria por parte dEle. Foi pela misericórdia de Deus que nos foi enviado o Salvador, pois sem a graça concedida a nós por Seus sacrifício, jamais poderíamos nos salvar.

    No mais, sua explanação acerca da justiça e do amor de Deus está boa.
    A frase “Deus é amor mas também é justiça” me faz lembrar um vídeo que achei por acaso no youtube, que traz uma pregação de um “pastô” muito do inculto. Ele repetia isso incessantemente.

    Paz e Bem

    • porele disse:

      Creio que é inegável o fato de Maria ser retratada nesta obra como aquela que concede “misericórdia” ao filho, por conta da forma “miserável” (a cruz era reservada aos piores criminosos) que Ele foi executado. A semiótica não nega isso: Maria com suas vestes volumosas, acolhendo em seus braços o cadáver magro de Jesus.

      Também acho genial (e necessária, ainda existem resquícios de arianismo hoje em dia) a retratação da natureza humana de Cristo.

      Obrigado pelo comentário!

      • oandarilho01 disse:

        Só pra não fugir à nossa “tradição” de discordância construtiva, meu caro:
        Acaso é factível que se conceda misericórdia a alguém já morto? Considerando o sentido prático (sem tender para uma devoção sentimental), a meu ver, não. Basta lembrar do dado presente no imaginário popular, que sugere o “pedido de misericórdia”, feito por quem está ameaçado de morte.
        Isso posto, não me salta aos olhos uma concessão de misericórdia (de acordo com a explanação que fiz no comentário anterior). Ali, no momento eternizado pela obra, já era tarde demais.

        abç

      • porele disse:

        É cara, mas esta é uma escultura emotiva! Vá dizer para uma mãe que tem nos braços um filho natimorto que aquele corpo não passa de uma casca vazia! É uma dor solene, mas ainda é uma dor de mãe… O carinho e a delicadeza com os quais ela segura o filho, já são em si uma forma de misericórdia… É realmente uma obra fantástica! Belíssima mesmo!

        Só por curiosidade: Legalmente, se não formos “misericordiosos” (ou seja, não nos condoermos com a maior miséria reservada a humanidade, – segundo os descrentes – a morte) com qualquer cadáver, estamos sujeitos a uma pena de 1 a 3 anos de reclusão, segundo o código penal brasileiro, Art. 212.

        Valeu!

    • porele disse:

      Vou aproveitar seu primeiro comentário para instigá-lo a dar sua opinião a respeito de mais um de meus textos (este é mais longo – embora menos filosófico – que os demais, por isso, é bom dispor de tempo para lê-lo).

      O título é “Hic Sunt Dracones!” (https://porele.wordpress.com/2011/04/23/hic-sunt-dracones/). Nele eu discorro a respeito da prática de inocular o rebanho com a peçonha do medo, que a meu ver, era a intenção do tal “pastô” citado por você.

      Abraços!

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