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Beija eu, Seja eu…

“Sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos” (Romanos 12:16)

Pessoas que professam um mesmo credo, seja ele político, ideológico ou religioso, costumam enxergar o mundo por um prisma em comum, assim, é de se esperar que os cristãos, ou melhor, as pessoas que se dispuseram a seguir o exemplo e os ensinamentos de Cristo, vejam a vida através das lentes da cosmovisão cristã.

Eu aceito a afirmação supracitada como uma verdade simples e auto-evidente, mas também não acho inconcebível que duas pessoas que bebem de uma mesma fonte de fé cultivem pontos de vistas dissonantes.

Não me entendam mal, minha intenção não é relativizar a fé ou a doutrina cristã, eu creio que existem questões basilares, que se não forem bem aceitas, levam o indivíduo a viver uma religião descaracterizada e/ou pervertida, ao passo que, existem matérias que podem entrar em pauta sem que para isso alguém precise cometer um pecado ou incorrer em heresias.

Acredito que os cristãos da era apostólica tinham esta mesma compreensão, pois, celibatários viviam em paz com pessoas casadas (1 Co 7:1, Mt 8:14), vegetarianos comiam ao lado de carnívoros (Rm 14:6), abstêmios trocavam experiências com apreciadores de vinho, etc…

Assim sendo, lanço as seguintes indagações: Por acaso não é pertinente a um crente desenvolver senso crítico? Não é conveniente que um homem de fé tenha suas próprias opiniões?

Arrisco dizer que a réplica de grande parte dos atuais líderes cristãos para ambas as perguntas seria um sonoro NÃO!

Estes arroubos de autoritarismo não são desencadeados somente pelo receio de perder o controle sobre o rebanho, pois, existem fatores históricos e culturais que levam a maioria dos detentores do poder a agirem desta forma.

A igreja, assim como toda sociedade ocidental, foi fortemente influenciada pelo dualismo helênico de Platão, o que nos leva a enxergar quase todas as coisas em pares equivalentes e opostos: Preto e Branco, Fé e Razão, Sagrado e Mundano, etc…

Por causa disso, toda opinião contrária é automaticamente classificada como maligna. A consequencia imediata disto é o empobrecimento cultural e a instituição do obscurantismo e do conformismo como sinais de uma fé saudável.

Afinal, é possível viver integrado a uma comunidade e ainda assim manter a individualidade? Eu creio que sim, até porque, estas duas coisas não ocupam hemisférios distintos do meu cérebro. Mas a maioria dos cristãos insiste em ver a Igreja pela ótica fordista:

“O cliente pode ter um carro pintado com a cor que desejar, contanto que seja preto.” (Henry Ford)

ou seja:

“Nós te aceitamos da forma que você é, contanto que você passe a se vestir, falar e andar como nós”

Por fim, como integrante do bando das “ovelhas negras” (que fazem questão de permanecer no aprisco do Bom Pastor), reafirmo que não estou propondo a negociação do inegociável (aspectos fulcrais da fé), e sim, que todos ponham em prática o principio da alteridade, que é a capacidade ou qualidade de “ser” o outro, entender seus anseios e dores (seja eu), e ama-lo (beija eu) apesar deles.

Seja eu!
Seja eu!
Deixa que eu seja eu
E aceita
O que seja seu
Então deita e aceita eu…

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A Igreja em posição de Lótus

Lótus

Houve um tempo em que as manhãs dominicais eram mais solenes. Recordo-me muito bem desta época gloriosa, pois afinal de contas, não se passaram tantos anos desde que o sol se pôs sobre o último daqueles dias… Não era incomum que famílias inteiras “guardassem” o domingo e dedicassem boa parte deste dia à contemplação de um frenético cortejo, onde desfilavam de forma ruidosa e desordenada, aqueles que eram os alvos de toda esta devoção. Antes do inicio do evento em si, os mais experientes dentre os presentes, discursavam  acerca das lutas vividas pelos heróis do passado, das artimanhas arquitetadas pelos infames vilões e sobre os mártires que perderam suas vidas no cumprimento do dever. Bons tempos aqueles!

Embora tenha utilizado imagens que remetem à cerimônias religiosas, os acontecimentos descritos no parágrafo anterior se desenrolavam durante as mundanas transmissões televisivas da Fórmula 1, lá pelos idos de 1990.

Muitos dos que ocupavam os cockpits daqueles bólidos eram dignos de menção, entretanto, resolvi falar de alguém que preferiu atuar nos bastidores.  Trata-se do genial engenheiro inglês Colin Chapman, fundador da Lotus Cars. Seu brilhantismo se apoiava na coragem de pensar  de uma forma contrária ao “Statu Quo” da época.

Os adversários da Lotus se valiam de uma receita bastante óbvia para fazer com que seus carros cruzassem a linha de chegada antes dos concorrentes – eles simplesmente, procuravam aumentar ao máximo a potência bruta de seus motores – em Hethel (pequeno vilarejo inglês onde está instalado o QG da Lotus), no entanto, as coisas eram feitas de forma diferente, pois lá era entoado constante e continuamente o “mantra” de Colin Chapman:

-  “Para ganhar velocidade, adicione leveza”.

Fora dos circuitos da F1 o antagonismo persistia, pois, a medida em que os EUA fabricavam carros cada vez mais poderosos, porém gordos e beberrões, a Lotus construía veículos menores, com motores bem menos potentes, todavia ágeis e capazes de bater qualquer banheira yankee em uma pista sinuosa.

- “Aumentar a potência deixa você mais rápido nas retas; subtrair peso deixa você mais rápido em todo lugar.” (Colin Chapman)

Não é difícil traçar um paralelo entre a Igreja hodierna e os opositores da Lotus. As instituições religiosas de hoje tornaram-se grandes, pesadas e famintas por “recursos” (sejam eles humanos, financeiros, etc…). A exemplo dos “Muscle Cars” americanos, tais instituições só são velozes em espaçosas highways, contudo, não exibem a mesma desenvoltura ao se depararem com uma estradinha estreita e cheia de curvas.

No final dos anos 60, os grandes fabricantes de Chicago tiveram que adequar seus automóveis as novas leis que estabeleciam limites para a emissões de poluentes, o que transformou os outrora “musculosos” em imensas barcas metálicas que não empolgavam mais ninguém.

Conforme escrevi em outra ocasião, creio que a Igreja Institucional ainda tem um papel importante a desempenhar, só não sei até quando, pois nada impede que novas “leis anti-poluentes” entrem em vigor…

Por fim, não estou bem certo se o melhor para a cristandade é continuar a bordo de seus possantes gigantes de aço, substitui-los por modelos menores e menos dispendiosos ou abandonar a combustão interna de vez e perfazer o restante do caminho a pé.

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Você não foi convidado!

Happy Birthday

Ahhhh! O natal, esta época mágica, tão querida por muitos, onde as famílias reúnem-se ao redor de uma mesa, para celebrar, para comemorar, para relembrar… O próprio natal!

A dura realidade é que o natal virou um fim em si mesmo. As tradições natalinas não nos ajudam a recordar – salvo pela visão de um ou outro ícone em meio as centenas que decoram as casas nesta época – o nascimento de Cristo.

Deixando as questões cronológicas de lado, fico pasmo em presenciar, nesta data que foi escolhida para trazer à memória a vinda do Salvador ao mundo (pelo menos em tese), vigorosas e não tão discretas tentativas de expulsar Jesus da festa!

No lugar de honra que deveria estar reservado ao Senhor, está assentado um outro “homem”. Ao contrário do que reza a lenda, o tal “homem” também não é Nicolau, que foi preso durante o reinado de Diocleciano (284 a 305 d.C) por recusar-se a negar sua fé em Jesus Cristo. Trata-se portanto, de uma outra “entidade”, e esta, em oposição ao bispo de Mira, seria incapaz de demonstrar tamanha convicção.

Aquele que é conhecido por Noel, em nada lembra Jesus…

Primeiro por sua aparência:

  • Jesus morrer jovem, aos 33 anos, não tendo tempo de ostentar uma longa e alva barba (já os religiosos que o acusaram…).
  • Os pigmentos que tingiam os tecidos de vermelho (derivados de materiais ferrosos) tinham preços proibitivos para um pobre carpinteiro.

E finalmente, por seus valores:

  • Em vários momentos, Jesus demonstrou um apego visceral a verdade, sendo Ele próprio a Verdade (Jo 14:6). Já o camaleônico Noel, apoia-se em uma mentira para induzir as pessoas a alimentarem o seu verdadeiro senhor, o mercado, com uma polpuda ração anual de capital.
  • Noel também não vê graça na graça, pois, no mundo meritocrático em que vivemos, onde todos tem que “correr atrás”, “fazer por merecer” e onde o cristianismo é a única dentre as grandes religiões que ousa falar de graça, o “Papai do Natal” não pode nem pensar em se alinhar com a minoria, não é verdade? Portanto, só crianças boazinhas recebem presentes!

No mais, só oro para que Jesus nasça em cada vez mais corações e que possamos celebrar o verdadeiro espírito do natal, não uma só vez por ano, mas em todos os dias de nossas vidas.

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” (Isaías 9:6)

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O vencedor

Nunca fui um desportista dos mais habilidosos, contudo, sempre gostei de esportes – muito mais de acompanha-los pela TV do que propriamente pratica-los – talvez por isso, o campeonato pan-americano que se desenrola na cidade mexicana de Guadalajara, me encha tanto os olhos!

Vejo competições desta natureza como imensas peças teatrais, onde o protagonista é sempre a alma humana e a cada ato temos vislumbres dos extremos que esta pode alcançar. Enquanto alguns exultam, orgulhosos das medalhas que pendem em seus pescoços, outros escondem o rosto com as mãos, lamuriosos por não terem alcançado o êxito almejado.

Creio que além do sentimento de falha, os atletas vencidos vivenciam uma crise de significância, pois raramente alguém que termina uma prova em quarto lugar, será louvado por seus esforços heroicos. A história da humanidade quase sempre foi contada pelos vencedores. Os derrotados e conquistados dificilmente tiveram a oportunidade de dar suas versões dos fatos.

As competições não se restringem aos eventos esportivos, pois desde muito cedo, sentimo-nos pressionados a provar que somos mais valorosos que os nossos semelhantes. Basta observar um grupo de jovens mães para vermos como cada uma delas se gaba por seu rebento ter engatinhado ou dito as primeiras palavras antes que os demais. Na escola, cobiçamos ser o melhor aluno da classe, o craque do time de  futebol ou o mais eloquente orador. E por fim, já na vida adulta, vemos nossos colegas de trabalho mais como adversários do que como companheiros.

A rivalidade entre seres humanos não é uma invenção moderna, ela remonta a tempos ancestrais, desde que Caim percebeu que a oferta de seu irmão foi melhor aceita por Deus que a sua própria (Gênesis 4:5). Aparentemente o sangue derramado de Abel marcou indelevelmente a alma humana, com efeito, que até a nossa piedade é permeada por um sentimento de superioridade, pois, ficamos aliviados ao encontrar uma pessoa em uma situação mais complicada que a nossa.  Não é difícil ouvir de amigos que tentam nos consolar: “existe gente em condições piores que a sua”.

O “cristianismo” hodierno ao invés de coibir (Gálatas 5:26), parece incentivar a emulação. Alguns líderes fazem uso de trechos da Bíblia – devidamente tirados do contexto – para incutir na mente de seu secto que estes devem, por obrigação, ser sempre mais bem sucedidos que os demais. E na corrida desenfreada para ser um “mais que vencedor”, os ditos cristãos ficam mais preocupados em romper uma fita com o peito do que quebrar as algemas que manietam os pés do próximo.

Grande parte dos ditos evangélicos anseia mais pelo palco do que pela cruz! Digo porém que deveríamos buscar o exemplo de Jesus, que apesar de ter a mente voltada para o céu, mantinha Seus olhos atentos à aqueles que caiam as margens do caminho. Cristo sentia-se irresistivelmente atraído por “perdedores”! E Ele não os olhava como pessoas de segunda classe, e sim, dava-lhes o devido valor.

“E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e mos enxugou com os seus cabelos.
Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés.
Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento. ” (Lucas 7:44-46)

Diante disto, sinto-me constrangido pelo modelo de Cristo! Gostaria eu de não ter que competir, de não ter que correr tanto, de dedicar mais tempo as pessoas e menos as coisas…

Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor

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O louvor involuntário

“Tudo quanto tem fôlego louve ao SENHOR. Louvai ao SENHOR.” (Salmos 150:6)

Louvor é antes de mais nada, uma expressão de gratidão e reconhecimento… Seja ela qual for! Assim, causa-me um certo desconforto ouvir alguém fazendo referência ao ato de louvar como um sinônimo de cantar. Esta pequena confusão terminológica nos conduz a um segundo ponto: A polarização “Musica do Mundo” vs “Musica Cristã”.

É curioso observar que as discussões acaloradas que hoje povoam muitos blogs e sites cristãos, não tinham espaço no meio da dita “igreja primitiva”! Não encontramos no relato bíblico neotestamentário nenhuma recomendação quanto a não consumir cultura “secular”, outrossim, vemos Paulo, que era bom conhecedor tanto da cultura judaica como da cultura greco-romana, não demonstrando nenhum pudor em citar poetas e escritores “mundanos” em seus escritos.

  • Paulo citou um verso usada em uma das peças do dramaturgo grego Menandro em 1 Co 15:33
  • O mesmo Paulo também fez claras referencias a poetas pagãos em At 17:28 e Tt 1:12

O que justifica a abstinência da boa música secular? De bons filmes seculares? De bons livros seculares? Da boa comida secular (Sim! Pois considero a culinária uma arte! E como eu creio que poucos judeus ortodoxos que só se alimentam de comida kosher certificada lerão este texto,  você provavelmente deve receber constante e alegremente este tipo de arte!).

O certo é que a criação por si só, em sua forma e função, nos fornece um testemunho vívido e belo da glória de Deus! O canto de uma ave não é entoado em nenhuma língua compreensível pela espécie humana, mas exalta o nome Daquele que é e que era e que há de vir, o farfalhar das folhas de uma árvore ao vento não formam palavras, mas celebram o Mestre de toda a criação!

E afinal qual é a fonte dos dotes artísticos? Da criatividade de Leonardo da Vinci, da poesia de Vinicius de Moraes, do virtuosismo de Yo-Yo Ma? Será que o Deus que nos equipou com inteligencia e sensibilidade permitiria que estes dons fossem utilizados para honrar ao diabo?

A grande verdade é que querendo ou não, quem produz a boa arte, bendiz ao Altíssimo! Portanto, mesmo ateus confessos como Nando Reis e Chico Buarque, ao comporem suas belas canções, elevam o nome dAquele que lhes concedeu talento.

O que é mais desconcertante é constatar que enquanto ateus louvam involuntariamente a Deus, nós cristãos, louvamos voluntariamente (e muitas vezes, voluntariosamente) a nós mesmos! As músicas de maior sucesso nos círculos evangélicos são as que dizem a Deus como Ele deve agir ou ainda aquelas que são verdadeiras “odes a minha vitória”!

Portanto, se algum dos meus leitores à esta altura ainda está receptivo aos meus concelhos, recomendo a todos bons livros, boa música, boa comida e os bons filmes, sejam eles cristãos ou não.

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